Por mais Tereza’s: Corpos como lugar de libertação

Tocar no corpo de alguém seja um toque físico, espiritual ou ainda, tocar na dimensão emocional, remete à intimidade. No corpo estão guardados os mistérios de cada pessoa, da sua própria construção, da sua história, seus valores e seus amores e, portanto, sua identidade, seu ethos!

O corpo da mulher, historicamente, remetido à sensualidade, e biblicamente ao pecado, continua ainda hoje sendo arrastado às estradas tortuosas de erros e descaminhos da história, tanto no meio social como, especialmente no campo religioso e da teologia. O corpo da mulher gerador de vida, do cuidado, da ternura, do encantamento, da generosidade, da emoção também é lugar sapiente mulier, ou seja, mulher sábia. Lugar da Sabedoria é lugar de libertação (cf. Pv 😎.

Não raro, são reproduzidas no noticiário as mais horríveis narrativas de violência contra os corpos femininos. Conforme a Lei Maria da Penha são violências física, psicológica, moral, sexual e patrimonial (ver site: institutomariadapenha.org.br). A violência é sofrida a partir dos ambientes os quais deveriam ser acolhedores e promotores de amor e de respeito. As pesquisas sobre violência contra a mulher e feminicídio (ver site: generonumero.media) mostram que o percentual mais alto de violência é dentro da sua própria casa a partir de familiares ou pessoas próximas à família, e as vítimas são desde bebês até pessoas idosas. Outros lugares de violência são também no transporte público, no trabalho e nas Igrejas.

O fundamentalismo religioso é um elemento presente no judaísmo e, que permeia, ainda hoje, as relações culturais até o absurdo de promover em um
silêncio ensurdecedor nos gritos da mulher seja: por mais participação nos espaços de decisão na Igreja e na sociedade; por mais espaços na política; por mais ofertas de recursos e tempo para que possam avançar, com credibilidade, nas pesquisas acadêmicas; enfim. Faz necessário uma mudança cultural urgente, e esta passa pela educação familiar e religiosa para se fazer entender que as mulheres querem viver seus dias – com os desafios e com os amores – com a capacidade, inteligência que lhe são próprias sem ter seus corpos violentados.

A mulher citada no Evangelho (cf. Mc 5,21-43) era considerada impura pela sociedade machista do seu tempo. Ela viu Jesus passar e sabia que ele podia trata-la diferentemente, ao ponto de ela ser curada por ele. Ela não é citada pelo nome, como muitas citadas na Sagrada Escritura. Novamente tocamos na identidade: o nome da pessoa na Bíblia revela sua identidade, essa era uma das maneiras de negar sua dignidade histórica. Com a santa ousadia a mulher que chamaremos aqui de “Tereza”, tocou em Jesus, mas estava ali no meio de uma multidão. Jesus percebeu um toque diferente daquele da multidão desinteressada em seu nome e em suas ações libertadoras, mas a Tereza não. Tereza foi buscar um caminho novo, e Jesus a tira do anonimato de uma sociedade machistas e preconceituosa que gera(va) discriminação, sofrimento e morte. Ela tem sentimento, sente dor, tem nome e tem um projeto de vida que é o de ser curada da doença física e das doenças provocadas pela violência cultural e religiosa.
Nossa pertença e existência no mundo se faz pelo Corpo: “Tudo pelo corpo. Tudo a partir do Corpo” (Alves, Rubem, Variações sobre a Vida e a Morte: o feitiço erótico-erótico da teologia. 2 ed. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985)

Portanto, podemos pensar que o fato de Tereza e tantas Terezas estarem curadas pelas doenças atuais como o preconceito, a violência doméstica, as perseguições, o feminicídio, a falta de espaço e respeito nos espaços de decisão sociais e religiosos, lhes garantem a libertação prometida pelo Mestre Jesus, que a partir da sua sensibilidade humana e divina sabia acolher, trazer para o centro, ou seja, dar a devida dignidade da pessoa (mulher, pobre, doentes, viúvas…hoje continuam sendo as mulheres, os doentes, as viúvas, as/os negros, os LGTBQIA+, etc.)

Quais são as luzes e as perspectivas para uma tão sonhada mudança onde o espaço e a dignidade da mulher sejam respeitados? Algumas luzes atuam como faróis – para nós – e abrem espaços nos campos da ciência, da teologia, nas comunidades eclesiais, nas famílias, na educação, enfim, são espaços ocupados por mulheres que, ao se capacitarem cada uma na sua área, não silenciaram sobre os tesouros escondidos dentro delas e são capazes de promover mudanças nas outras. Podemos citar outra ação importante, que passa pela educação permanente, para que as mulheres de todas as gerações despertem seus corpos do pesadelo da violência para um belo alvorecer de relações de sororidade e amorosas.

A realidade atual brasileira é ainda mais desafiadora quando se trata da violência contra a mulher, visto a atuação do governo federal com suas políticas feminicídas.

Celia Soares de Sousa (Mestre em teologia – PUC-SP) Ver menos

Centro interdisciplinar onde pesquisadoras/es que se dedicam ao estudo de gênero, diversidade sexual e violência apresentam seus trabalhos, debatem e publicam artigos.

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