Teologia e Literatura

Em 1976, Amos Wilder propôs uma urgência à Teopoética, considerando essencial o retorno ao simbólico, a experiência, ao papel da imaginação na vida religiosa. Segundo ele, a sociedade e a natureza humana são mais motivadas pelas imagens do que elas ideias. E mais, “Uma teopoética criativa é necessária, portanto, não apenas para vitalizar uma teologia tradicional, mas também para relacionar nossa experiência cristã à nova sensibilidade de nosso tempo e suas imagens e cultos” (WILDER, 1976, p. 7). Anterior à Wilder, Stanley Romaine Hopper inicia os estudos de Teopoética em 1971. Esta teopoética surge como um retorno a experiência do sagrado, uma nova forma de linguagem teológica que conduz à experiência. Vale ressaltar que ela surge em um Ocidente pós-Deus, um mundo racional que afasta a experiência, a fenomenologia. Em nosso contexto, Rubem Alves é quem traz esta leitura poética da teologia, a linguagem que tira a teologia das torres e a leva para o povo. Antes de continuarmos a falar propriamente da Teopoética, precisamos recordar o fato do cristianismo ser uma das três religiões do livro. A Bíblia é uma literatura, e isto não a desconfigura de sua importância para o cristianismo, pelo contrário, acentua o entendimento e estudo do texto. Um livro reunido entre duas capas que poderia ser uma biblioteca (FRYE, 2021, p. 11), que possui o início no Gênesis com a criação e o fim em Apocalipse, um fim em aberto já que apesar do fim, o relato do apocalipse nos apresenta um novo céu e uma nova terra. Entre o início e o fim, há a história de um povo, ela também é a construção literária de um povo. Segundo Robert Alter, “a Bíblia tem muita

coisa a ensinar a qualquer pessoa que se interesse por narrativa, pois sua arte — que parece simples, mas é maravilhosamente complexa — é um exemplo magnífico das grandes possibilidades da narrativa” (ALTER, 2007, p. 10).

Teologia e Literatura possuem uma relação quase que intrínseca apesar de todas as tensões que estas duas áreas protagonizaram ao longo dos séculos. Ambas se interessam pelo humano e por tudo que lhe diz respeito, além de tocar e levar-nos em direção ao entendimento do sentido da existência, e é a partir desta relação que a Teopoética surge. Visto que tanto para a teologia, quanto para a literatura, o humano é o seu interesse, estas duas disciplinas se encontram na Antropologia. Sendo assim, elas se inter-relacionam mantendo as suas individualidades, ou seja, não são instrumentalizadas nem tampouco obscurecidas uma por parte da outra. Desta forma, a Teopoética pode ser colocada como a zona de fronteira entre a teologia e a literatura.

Na América-Latina a teopoética enquanto campo de estudo é iniciada através de Gustavo Gutiérrez e Pedro Trigo. Em 1994, Antonio Manzatto publica seu livro Teologia e Literatura. Reflexões a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado, iniciando a teopoética no Brasil. Junto à Manzatto, José Carlos Barcellos também é um dos precursores desta área em nosso país, e apesar de ter nos deixado cedo, deixou uma grande contribuição, sendo uma delas, seu artigo que trata das relações metodológicas de aproximação entre Teologia e Literatura, a saber Literatura e teologia: perspectivas teórico-metodológicas no pensamento católico contemporâneo. Neste artigo de Barcellos vemos a teopoética como uma destas metodologias, que fora proposta por Kuschel. Este propõe um “caminho a teopoética” no último capítulo do seu livro Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários.

A Teopoética é uma práxis, ou como ressalta Maria Clara Bingemer, é uma “teo-poietica”. Neste sentido, o discurso teopoético é o condutor de uma práxis que muitas vezes se vê perdida na Teologia. Mas não somente uma práxis, ela é uma reflexão que aproxima a Teologia da comunidade, trazendo um retorno da linguagem teológica dos primeiros cristãos. Isto é, antes da teologia ter uma linguagem científica, a sua linguagem era artística e experiencial. Assim como a Bíblia é recheada de metáforas e nos apresenta um forte discurso poético. Como expressa Po Hu Huang: “A teopoética sugere que, em vez da teologia sistemática tradicional, que tenta perceber a natureza de Deus por meio de teorias científicas, seria mais preciso que os teólogos e as teólogas falassem de Deus por meio da expressão poética” (HUANG, 2008, p. 124).

O teólogo Karl Rahner vai dizer que a “Teología significa originariamente un hablar hímnico acerca de Dios” (RAHNER, 1955. p.79). Em um mundo que sofre o teólogo é chamado a ser um teopoeta, não um repetidor de dogmas e doutrinas, mas sim um hermeneuta da fé e da experiência religiosa. Enquanto teopoeta, ele é chamado a uma práxis libertadora pela palavra.

Centro interdisciplinar onde pesquisadoras/es que se dedicam ao estudo de gênero, diversidade sexual e violência apresentam seus trabalhos, debatem e publicam artigos.

Fique ligado

Deixamos aqui uma breve descrição sobre nossa rede  TeoMulher.
 
Boas-vindas a todes! Vamos  construindo este espaço em  conjunto. ❤️♀️